Auto-Ajuda

 

 

Quem sou eu?

 

Aquele dia corria longo e quente, como convém a um dia de verão. Uma leve brisa entrava por aquela janela, já oxidada de tantos verões que se passaram, e envolvia o quarto com um toque sutil de uma carícia inesperada. A lua era de fim de tarde. E o relfexo pálido daquelas paredes desbotadas se misturava ao silêncio torturante e calmo, quebrado algumas vezes por sons que vinham de fora. Os móveis eram brancos (agora já não tão brancos). Pareciam fitar-me. Impassíveis e serenos. Meu retrato ainda sobre a velha escrivaninha. Meus livros pareciam petrificados sobre a estante. A mesma bagunça dentro do guarda-roupa ainda permanecia "arrumada". Intocada. O acordeão. Ah, o acordeão, velho amigo. Acho que nunca mais o tiraram dali. Tudo continuava igual. Mesmo a aflição de estar ali naquele momento, esperando alguma coisa quebrar a monotonia. Impassível!!! E o telefone que não soava. Pelo menos um engano! As coisas haviam mudado, eu bem o sabia, apesar de negar-me a percebê-lo. As vozes de outrora, ou já não mais estavam ali, ou haviam se ajustado de tal modo que se calaram para lembrar coisas que não a própria rotina em que se meteram. Muitos dos amigos haviam se "posicionado". E os risos perdidos em noites claras de boemia, perderam-se em silêncio fundo de opção. As minhas primeiras namoradas (que saudade daquela infantilidade séria!) estavam agora trabalhando (suponho), preocupadas com assuntos mais sérios. Os sonhos haviam terminado. A Lua não ressurgiria: como uma promessa. As estrelas já não pertencem a ninguém... Eu continuava dedilhando as páginas amarelecidas da agenda. Cada letra do alfabeto a representar uma volta através de mim mesmo. Pouco sabia do destino daquelas pessoas. Tentei desfazer o encanto. Mas que decepção!!! Uma voz polida me deu "boa tarde" e informou ser de certa empresa de transportes. Acertou-me como uma bofetada. Um horrível sentimento de vazio se apossou de mim naquela hora. Finalmente acreditei. Estava só.

Caro Amigo

Afinal consegui sair do marasmo e reunir forças para te mandar estas palavras, senão acadêmicas, no mínimo sinceras e obviamente marcadas pela poeira de nosso tempo incerto e arrendado. Espero que esta te encontre com a lucidez em dia, já que agora isto é privilégio.

Tens lido jornal? Assassinaram um poeta cujo objetivo era a paz. Absolveram aquele réu que estrangulou sua namorada porque ele ama outra, tem dinheiro e poder. Na cela, foi encontrado desfigurado aquele outro rapaz. Disseram que foi suicídio. E a família só pôde receber a metade de poucas notas.

Não findou o mês e, perdidas entre anúncios de TV's, presentes e desejos de muita paz e prosperidade para o ano vindouro, vejo as novas taxas de inflação. Os preços do pão e do ônibus vão aumentar. A prestação. É, parece que, cada vez mais, os pratos estão ficando "limpos". Se se sujarem, os odiados detergentes poderão ser empregados sempre mais uma vez. A espuma-lucro vai continuar assassinando milhares de peixes imbecis e inúteis para o sistema. Viva o progresso! Abaixo os conservacionistas contrários ao desenvolvimento. Onde já se viu querer preservar a floresta? Há muita madeira ainda. Vejo fotografias de crianças ossudas a infestar regiões de trás da Terra. Parecem sujar o quintal de nosso mundo. Este ostenta uma sala de "nobreza". Sim, meu amigo, quantos buracos teremos que contar ainda, até que nossos pés se sintam seguros para andar? Quantas lágrimas irão secar sem resposta, até que se veja que elas podem nos afogar para sempre se não reagirmos? Até quando a justiça estará cativa, cegada pelas próprias mãos que a criaram?

Vou me despedindo. O ônibus vai passar. Quanto tempo nos resta? Pelo menos nossas palavras e nossos sonhos não são tarifados. Perdidos no meio desta névoa envolvente, resta o poder de nossa vontade. Alguém, em algum lugar, sempre levantará uma bandeira.

Abraços.


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