Explosão das Denominações após a REFORMA
A liberdade sobre a leitura bíblica imposta pela Reforma ocasionou um enorme avanço ao cristianismo, ou pelo menos, possibilitou-o a retomar os passos do cristianismo primitivo. Entretanto, tamanha liberdade fez com que várias correntes de interpretação surgissem nos séculos subseqüentes. Pessoas começaram a ler a bíblia de acordo com o seu tempo – o que respondeu a inúmeras perguntas, mas suscitou muitas interpretações distintas, principalmente quando era feito sem critério e por pessoas leigas influenciadas pelo sentimento. Estes leigos, sem formação acadêmica, e, principalmente nestes dois últimos séculos, fizeram-se ouvir pelas suas interpretações simplistas e populares. Diante dessas várias leituras bíblicas nos encontramos hoje. Veremos alguns ramos (abordaremos mais a questão do néo-pentecostalismo – pois trata-se de algo emergente e atual) que brotaram de maneira distorcida do seio reformado.
Faremos aqui uma breve definição de
seita, a partir do que diz o Rev. Tácito Gama:
“O termo
seita vem do substantivo latino secta e do verbo sequi, que
significa seguir. A palavra grega que aparece na bíblia é háiresis, ou
seja, heresia, que, por causa da semântica, foi traduzido na Vulgata por seita.
No seu sentido original significa escola ou modo de pensar e de viver que é
seguido por pessoas. O sentido original, portanto, não é pejorativo, visto que o
próprio cristianismo foi denominado de seita (At 26.5). Com o tempo, o termo foi
adquirindo um significado negativo, ou seja, espírito sectário, ferrenho,
estreito, agressivo, maquiavélico".
O
pentecostalismo nunca foi homogêneo. Desde seu início, sempre conteve diferenças
internas. As maiores diferenças na verdade, não são nem tanto teológicas, mas
comportamentais, e são elas que definem a identidade pentecostal; desde o seu
surgimento até agora, inúmeros ramos brotaram na árvore pentecostal. São
difíceis, não de discernir, mas de dar-lhes uma identidade. Vários teólogos
tentam dividir o movimento pentecostal. A divisão que achamos ser mais coerente
é a de Paul Freston:
“O
pentecostalismo brasileiro pode ser compreendido como a história de três ondas
de implantação de igrejas. A primeira onda é a década de 1910, com a chegada da
Congregação Cristã
No Brasil (1910) e da Assembléia de Deus (1911). A segunda onda
pentecostal é dos anos 50 e início de 60, na qual o campo pentecostal se
fragmenta, a relação com a sociedade se dinamiza e três grandes grupos (em meio
a dezenas de menores) surgem: Quadrangular (1951), Brasil para Cristo (1955) e
Deus é Amor (1962). O contexto dessa pulverização é paulista. A terceira onda
começa no final dos anos 70 e ganha força nos anos 80. Seus principais
representantes são a Igreja Universal do Reino de Deus (1977) e a Igreja
Internacional da Graça de Deus (1980). O contexto é fundamentalmente carioca”
O tempo vai passando e mudando, com isso,
determinando a leitura e o surgimento de novos grupos oriundos da fé
pentecostal. Sua marca, em todas as classificações, é o sentimentalismo e a
experiência. Desde quando surgiu, surgiu pela experiência e para ela. O homem
foi colocado no centro para que pudesse sentir a experiência com o divino. Eis a
classificação atual de pentecostalismo baseada em Freston:
Fazem
parte dessa linhagem, no Brasil, a Igreja Assembléia de Deus e a Cristã no
Brasil. O termo clássico surgiu em meados de 1970, quando pesquisadores
norte-americanos acrescentaram a designação classical às denominações
pentecostais do início do século, período de gênese do pentecostalismo, para
distingui-las de outras pentecostais ou carismáticas surgidas nos anos 60.
Alguns autores também usam o termo histórico, ou ainda, tradicional. Para
entender o que se denomina movimento pentecostal clássico do século XX, é
necessário tornar claro o seguinte: É um movimento missionário de caráter
mundial, que possui uma dinâmica própria, herdando muitos traços dos movimentos
de santidade da Inglaterra e dos Estados Unidos, particularmente do
metodismo. A grande maioria das igrejas pentecostais surgiram das
igrejas históricas herdeiras da Reforma Protestante do século XVI. Seu marco
inicial foi em 1900, quando Charles Parham, alugou uma "Mansão de Pedra", como
era conhecida, em Topeka, Kansas para estabelecer uma escola bíblica chamada
Betel. Cerca de 40 estudantes ingressaram na escola para o seu primeiro e único
ano atraídos pelo seguinte propósito - "descobrir o poder que os capacitaria a
enfrentar o desfio do novo século". O método de ensino era pesquisar e estudar
um assunto, esgotando todas as citações bíblicas sobre o assunto e apresentá-lo
para a classe em forma de sabatina oral, orando para que o Espírito Santo
estivesse sobre a mensagem trazendo convicção. Até dezembro de 1900, já tinham
estudado sobre arrependimento, conversão, consagração, santificação, cura e a
eminente vinda do Senhor. No dia 25 de dezembro, Charles Parham iria se ausentar
por alguns dias e deu a seguinte instrução para eles:
"Nós nos deparamos em nossos estudos com um problema. É sobre o segundo
capítulo de Atos?... Tendo ouvido tantas entidades religiosas diferentes
reivindicarem diferentes provas como evidências do recebimento do batismo
pentecostal, eu quero que vocês estudantes estudem diligentemente qual é a
evidência bíblica do batismo no Espírito, para que possamos apresentar ao mundo
alguma coisa incontestável que corresponda absolutamente com a Palavra".
Três dias após, apresentaram seus trabalhos com a mesma história.
Embora diferenças tenham ocorrido quando a benção pentecostal caiu, tinham como
prova irrefutável o falar em outras línguas. Foi esta descoberta, que deu inicio
o Movimento Pentecostal do século XX. "Tal foi a magnitude e impacto do
movimento, que, já na primeira década depois de Azuza , sabia-se de experiências
pentecostais na Ásia, África, Europa e América Latina. O movimento se
multiplicava agora em muitos movimentos com variedade de matizes e expressões,
como um grande caleidoscópio".
O movimento pentecostal no Brasil, teve inicio com os missionários Daniel Berg e
Gunner Vingren, crendo ter recebido revelações de Deus, vieram para o norte do
Brasil -estado do Pará; onde, numa Igreja Batista, começaram a pregar o batismo
com o Espírito Santo e ali fundaram a Igreja Assembléia de Deus. Outro
missionário, Luigi Francescon,
antigo membro da Igreja Presbiteriana Italiana de Chicago, também, por
"revelação" de Deus, segue para a Argentina e Brasil, iniciando nos estados de
São Paulo e Paraná a
Congregação Cristã no Brasil.
Este movimento hoje é considerado como
sério. Teve uma origem leiga sob uma exegese contestável; entretanto, agora
parece ser um movimento preocupado em servir a Deus.
Nos anos 50, uma segunda onda pentecostal se iniciou, fazendo dos milagres e da
cura divina sua principal ênfase, diferentemente da primeira onda, onde a ênfase
recaia sobre a glossolalia, entretanto, o núcleo doutrinário permaneceu
inalterado. Os pioneiros dessa nova onda são os ex-atores de filmes de faroeste
do cinema americano: Harold Williams e Raymond Batright. Difundiram-na por meio
do rádio (que era considerado até então pelo pentecostalismo clássico como
mundano e diabólico). Dessa nova investida surgem denominações como a Igreja do
Evangelho Quadrangular - Cruzada Nacional de Evangelização (1953)
; Igreja Pentecostal "O Brasil para Cristo"(1956); Igreja de Nova
Vida (1960); Igreja Pentecostal "Deus é Amor"(1961); Casa da Benção(1964),
Metodista Weslyana(1967) e uma enorme quantidade de pequenas denominações,
formando comunidades locais.
Finalmente, nos anos setenta, o país recebe o impacto da terceira onda
pentecostal, vinda junto com uma crise econômica sem precedentes, crise
internacional do petróleo e emergido em uma ditadura militar tentando resolver
os problemas básicos do povo mais pobre. Dessa onda surgem o Salão da Fé(1975),
a Igreja Universal do Reino de Deus( 1977)
, a Igreja Internacional da Graça(1980) e várias outras. Seu discurso
básico, presente em todo momento é a cura divina, porém com uma doutrina
diferente dos pentecostais anteriores. Todas as aflições são resultante da
onipresença de demônios na vida. A saída é o exorcismo, a freqüência constante
aos cultos e a aplicação das várias terapias recomendadas pelo movimento. O
movimento que foi chamado de "neo-pentecostal”, colocou em primeiro lugar a
saúde do corpo, a prosperidade e a solução dos problemas psíquicos, colocando-as
como resultado imediato da busca do sagrado. Ficaram para traz as preocupações
escatológicas e até mesmo glossolalia. O velho dito de antes agradar a Deus do
que aos homens foi fadado a existir apenas nas religiões já existentes. O que
agora se vê é uma procura para agradar o homem, independentemente do agrado a
Deus; Ele que se adapte a nova filosofia. Além disso, o "diabo" é enfatizado
como o causador de todos os males que atacam os seres humanos, animais ou
objetos. Daí, a importância que se deu ao exorcismo, uma maneira de se delimitar
campos e forças aparentemente misturadas, que impedem a saúde, sucesso e
prosperidade. Devido a tendência das igrejas pentecostais de aceitarem os dons
de profecias e profetas, sem uma ortodoxia bíblica, criou-se um espaço para as
afirmações da teologia da prosperidade, a qual encontrou um solo fértil para se
firmar e crescer, no entanto, há algumas igrejas pentecostais que não fazem
parte da teologia da prosperidade. Entretanto, há uma grande disparidade
teológica entre as igrejas néopentecostais: alguns são predestinacionalistas,
outros sabatistas, etc.; herança do pentecostalismo clássico e deutero. São
muitos que se infiltram nas igrejas de Bíblia em punho, parecendo crer no que
cremos; no entanto um estudo mais minucioso revelará que suas posições
doutrinárias são inaceitáveis à luz das Escrituras e do cristianismo histórico e
ortodoxo.
Atualmente a Universal está inserida em mais de 50 países, seus templos chegam a
mais de três mil, e possui mais de um milhão de membros.
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