Uma
bordadeira viúva, muito pobre,
deparou-se certo dia com um trabalho de grande
perfeição
e desejou criar outro igual...
O BORDADO ENCANTADO
...a partir de então, depois
de dedicar-se até tarde aos trabalhos que vendia
no mercado,
avançava noite adentro, tentando dar forma a seus
sonhos.
Iluminada apenas por uma tocha que exalava tênue
mas irritadiça fumaça,
seus olhos arderam e verteram copiosas lágrimas.
Então ela teve uma idéia:
Reteria as lágrimas no lago da paisagem que estava
bordando.
Mas a irritação foi piorando e chegou a um ponto
tal que tingiu de sangue
as lágrimas da obstinada mulher.
Assim que conseguiu terminar o trabalho,
a viúva mostrou-o aos filhos que ficaram
maravilhados.
O bordado era
tocado por um sopro mágico.
Como a mãe teve forças para realizar semelhante
tarefa?
Para ver o bordado sob os primeiros raios de sol,
a viúva foi para fora, seguida pelos filhos.
Aos poucos, toda a aldeia juntou-se a eles e não
houve quem não se
surpreendesse com a beleza radiante que tinham
diante de si.
No auge da festa...
um forte vento envolveu a bordadeira, arrancou a
obra de suas mãos e sem que
ninguém tivesse tempo para nada, levou-o feito
pipa para além das montanhas.
A bordadeira pôs-se a chorar.
Depois desse dia...
a bordadeira foi tomada por tamanha tristeza, que
acabou adoecendo.
Perdera a vontade de trabalhar, de comer e de
falar. Só cantava:
"Quem me trouxe assim de longe
bordados tão delicados?
Quem me deu risos e flores
sem diluir meus pesares?"
Desse modo...
todo final de tarde, seu lamento espalhava-se pela
aldeia afora,
enchendo de melancolia o coração das gentes que
viviam no lugar.
Um dia...não suportando mais, chamou os filhos;
- Meus queridos, tenho que procurar meu bordado.
- Fique em casa, mãe. Eu vou procurar o bordado em
seu lugar
- falou o filho mais velho.
No dia seguinte, ele partiu em direção ao Leste.
A viúva voltou a bordar algums peças e vendia no
mercado.
E o tempo passou.
Como não tinha notícias do filho, adoeceu
novamente.
O segundo filho saiu à procura do irmão e não mais
retornou.
Uma noite, a mulher anunciou que ela mesma
iria atrás dos filhos e de seu bordado.
-Mas, minha mãe!
No seu estado não agüentará andar noite e dia
pelas estradas!
- falou o filho caçula.
E partiu.
Dois dias depois, avistou uma cabana.
Uma velhinha apareceu à porta e perguntou o que
ele desejava.
- Estou à procura de meus irmãos e de um bordado
levado pelo vento.
- falou o moço.
- Dei pousada a seus dois irmãos, porém, antes do
dia amanhecer,
eles fugiram em direção contrária, com os
saquinhos de ouro que eu lhes
ofereci par alguma eventualidade.
Soube que não pensam mais em voltar para casa.
O jovem ficou indignado com o que ouviu e
envergonhado,
não conseguiu reter as lágrimas.
A velhinha falou:
- Em primeiro lugar, é preciso desencantar o
cavalo de pedra que
está na entrada da cabana.
Só ele sabe chegar ao bordado.
Com uma pedra, devo arrancar dez dentes seus e
implantá-los no cavalo.
Depois terá de comer dez morangos do canteiro e
tão logo
faça isso estará prestes a partir.
O rapazinho ficou apavorado.
- Nào forçe seu coração se ele o impede de
prosseguir.
Sua mãe compreenderá.- falou a boa velhinha.
E antes de romper o dia, ele anunciou:
- Boa senhora! Quebre meus dentes!
Nào vou abandonar meu caminho! Estou pronto.
Inexplicavelmente nenhuma gota de sangue saiu da
boca do rapaz
e a dor cessou assim que o cavalo comeu os dez
morangos.
No momento da partida, a velhinha disse ainda:
- Para recuperar o bordado, você terá que vencer
também o fogo,
o frio e a violência das águas.
Um único descuido e as chamas o reduzirão a
cinzas,
o frio o transformará em estátua e as águas o
sugarão para sempre.
Depois de muitos dias de longas lutas contra as
labaredas de um vulcão,
revoltas águas do mar,
glaciais temperaturas,
o rapaz chegou ao sopé de uma montanha.
Dali avistou um castelo de cristal.
Tomou um banho no riacho, e enquanto se
aproximava,
ouvia um canto delicado, vindo de um jardim onde
graciosas jovens bordavam.
Espantadas com o relincho do cavalo,
as moças cercaram o rapaz com muitas perguntas.
Envaidecido com tantas atenções, ele nem se
lembrou da falta dos dentes.
A Rainha das Fadas saiu do castelo e veio falar
com o estranho.
- O que o traz ao nosso reino, forasteiro?
- Procuro o bordado de minha mãe.
- O vento tomou-o emprestado.
- Emprestado?
- Sim. Quando alguém cria uma técnica nova,
as fadas são obrigadas a aprendê-la para inspirar
outras bordadeiras.
Falta saber como ela bordou as águas do lago e
como conseguiu tão
belos tons de vermelho no horizonte.
- Quanto tempo ainda demoram?
- Não mais de dois dias e serás nosso hóspede.
Temos, porém, uma condição, meu jovem: do reino,
só poderá levar o bordado e boas lembranças.
Somente as fadas podem viver nesse reino.
A fada de vermelho se apaixonara à primeira
vista pelo rapaz e ele por ela.
Para se consolar, a moça resolveu aplicar uma
pequna
fada de vermelho no bordado para que o amado se
lembrasse
dela toda vez que o olhasse.
"Por que não era como os humanos, não impedidos de
amar?"
Antes mesmo do dia clarear,
o rapaz pegou o cavalo e preparou-se para partir,
levando apenas o bordado e a dor da separação.
No retorno, as vagas do mar, o frio das
geleiras,
o calor das labaredas não ameaçaram o moço.
A velhinha, o recebeu feliz.
- Estou orgulhosa de você.
Arrancou os dentes do cavalo devolvendo ao jovem.
- Agora você vai calçar essas sandálias mágicas
e estará em cada num minuto.
Sei que seu coração chora, mas lembre-se de que
NUNCA SABEMOS O QUE PODERÁ NOS OCORRER.
Ao chegar na aldeia onde morava,
uma vizinha veio falar-lhe:
- Sua mãe não se alimenta, não fica mais de pé,
não sai da cama dia e noite.
O moço, desenrolando o bordado, gritou:
- Olhe minha mãe, olhe seu bordado!
Consegui trazê-lo de volta!
- Vamos para fora - falou a mãe, já fortalecida.
- Finalmente poderemos admirar o bordado em paz.
Um inesperado vento, porém, surgiu novamente no
auge
dos festejos e arrancou o bordado das mãos da
mulher.
Só que desta vez, assim que ganhou altura,
o bordado ficou parado no céu, aumentando aos
poucos de
tamanho até recobrir a aldeia.
E cada pedacinho ganhava vida, transformando o
pobre vilarejo
num lindo, feliz e rico povoado.
- É um milagre! Um verdadeiro milagre!
- repetiam todos.
Feliz, o filho da viúva saiu correndo pelos
imensos campos de flores,
achando o lugar tão belo como o da montanha
encantada.
Pôs-se a chorar e lembrar da amada e foi ao lago
na esperança
de encontrar consolo na placidez de suas águas.
De lá saiu uma jovem parecida com a fada de
vermelho.
- ....quando tudo ganhou vida, a imagem que eu
bordei também se tornou real.
Assim, estou aqui, sem ter saído de lá.
O jovem tomou a amada nos braços e a pediu em
casamento.
E foram felizes naquela aldeia, iluminada todo
final de tarde
pelo brilho de um sol avermelhado.
Os dois irmãos...não se soube mais deles.
(Edmir
Perrotii...Col. Lua Nova, Paulinas, 1998 Prêmio
Jabuti 1997)