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Onde Andará, Alegria?  

Quando eu a encontrei pela
primeira vez, Alegria era
uma agitada menina de
seis anos.
Eu a vi atravessando a rua,
com suas frágeis pernas,
arrastando seu inseparável
cãozinho Vento Sul.
 

E confesso que não teria prestado
a mínima atenção naquela criança,
se ela não tivesse corrido em
minha direção e quase me
atropelado com sua pressa.
Alegria vivia correndo e o pobre
Vento Sul sofria para
acompanhá-la.
 

 

Eu e minha mulher Laís havíamos
acabado de mudar para aquele
bairro, em busca de tranqüilidade
e de um ar mais puro.
Esperança fica num vale, cercado
por montanhas a 30 minutos do
centro da cidade.
 

 

Alegria foi a primeira pessoa a
nos dar as boas-vindas.
 

 

O que mais me impressionou
naquela menina magra foram
seus enormes olhos claros,
cor-de-mel.
Eles pareciam ocupar todo
o espaço do seu rosto miúdo,
onde duas covinhas brincavam
em suas bochechas.
E a segunda coisa que me
impressionou foram suas duas
longas e finas pernas,
parecendo dois gravetos secos,
sempre com duas rosas de
mercurocromo pintadas em
seus joelhos ossudos.
 

 

Durante os três anos que
convivemos, Alegria sempre
esteve com os joelhos
vermelhos, resultado de
suas correrias.
 

 

Laía logo percebeu que
Alegria era uma menina
diferente:
Ela era ILUMINADA!
 

 

Meu ar sério, calado, longe de
crianças, meus cabelos grisalhos
e meus óculos de tartaruga
também nunca as atraíram.
Mas Alegria ignorou tudo isso.
Assim que me viu, Alegria disse:
- Você precisa tomar mais cuidado.
Quase me fez cair.
Como é seu nome?
Eu nunca vi você por aqui.
Ah, já sei, você está morando na
casa amarela, no fim da rua,
não é? - ela emendou.
Meu nome é Alegria e sou sua
vizinha. Tchau.
 

 

Passei a ver Alegria quase todos
os dias.
E sempre derramando sobre mim
seus doces olhos cor-de-mel.
 

 

Em pouco tempo, a mãe da menina
e Laís tornaram-se amigas.
Assim, Alegria entrava e saía
lá em casa.
Durante três anos contei histórias
para ela, que, sentada em meu
colo, arregalava mais ainda
seus enormes olhos.
 

 

Laís a esperava com guloseimas
e Alegria ficava fascinada com as
flores, os desenhos e as coberturas
que minha mulher inventava para
decorrar os doces.
 

 

Alegria tinha um único irmão.
Juca. E ele a irritava pois a
chamava de pernilongo.
 

 

Sempre me perguntei o que Alegria
viu num casal de velhos e numa
casa amarela, sem crianças para
brincar.
Quando tocava nesse assunto,
ela ria, esticava seus braços
finos em volta de meu pescoço
e respondia orgulhosa:
- VOCÊS SÃO MEUS AMIGOS GRANDES.
 

 

Sentíamos sua presença pela casa,
com seu risinho, com sua vozinha
fina, seus joelhos machucados e
seus olhos doces.
 

 

Ela era um raio de sol que
atravessava a veneziana
fechada e que, com
simplicidade, abrira nossos
corações para sentimentos
até então desconhecidos.
 

 

Alegria me ensinou a rir.
 

 

Aprendi a passear de mãos dadas
com ela nos dias ensolarados,
a chupar balas e a ver nas
nuvens códigos secretos.
Passei a amar os finais de tarde,
quando ela entrava correndo e,
como uma borboleta, pousava na
cadeira de balanço.
 

 

UM DIA, ela me chamou muito
séria e falou:
- Estou triste, Téo.
- Posso ajudá-la?
O que aconteceu?
- Ninguém pode me ajudar.
Vou me mudar para outro país.
Meu pai foi transferido.
 

 

Naquele instante meu coração não
cabia dentro de mim.
Doía muito.
Voltamos para casa silenciosos.
 

 

Tudo aconteceu rapidamente.
Em dois meses, Alegria se despedia
de nós com seus olhos agora inchados.
Ela tinha 9 anos, então.
 

 

Até hoje, tenho os cartões-postais
escritos por ela.
Vieram da França, Bélgica,
Argélia, Oslo.
Seu pai trabalhava numa
multinacional e viviam
se mudando.
 

 

Depois da partida de Alegria,
Laís desistiu de fazer doces.
E eu, me trancava na biblioteca.
 

 

No ano seguinte,
minha mulher adoeceu.
Talvez tivesse sido tristeza,
não sei.
Antes de morrer, ela me pediu:
tentar achar nossa querida menina
e dizer a ela para vir tomar café

com bolo confeitado.
 

Mesmo doente, Laís aguardava o
correio, esperando notícias
de Alegria.
 

Muito tempo já se passou.
Culpa dos correios, eu nunca mais
ter recebido notícias de Alegria.
Sei que ela não me esqueceu.
Sei que vai voltar um dia para
me ver.
Ela deve ter se tornado uma linda
moça e certamente seus joelhos
não estão mais vermelhos.
 

 

Sei que um dia, ela estará lá,
no portão, me esperando."
 

 

(Conto de Miriam Portela, Edit.Moderna, 2001)

 

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